20 julho 2006

O Chamado

No fundo mais
profundo
meu mundo se
esconde
e responde
à chamada da
morte.

15/04/2003

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15 julho 2006

Manhã de Lua

Que cor estranha de amanhecer
cor de bola-de-fogo reluzente
para aquecer a cidade gelada
e queimar-lhe os horrores e dores
diuturnos

Relâmpagos cortam o horizonte
tomado por um cinza-chumbo
apocalíptico.

É o caos!

A chuva lavou a cidade para seu derradeiro fim

A luz amarela fica cada vez mais
forte
o horizonte-chumbo cada vez mais
próximo
o fim cada vez mais
real
enquanto humanos-formiga
zumbizando pelas ruas
dirigem-se à morte cotidiana

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De repente, o amarelo torna-se
violeta
que torna-se
lilás
reanimando o dia de céu
enraivecido
de face reluzente, sem
ouvir o estampido

e as formigas-zumbis
continuam seu caminho
enquanto o horizonte-limbo se apresenta
cada vez mais
próximo

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Tipim fica aguardando a água da
chuva
para lavar os pensamentos da noite
imunda
e observar os raios que poderiam rachar-lhe a
cuca


Vêm as primeiras gotas da chuva
umedecer a rua soturna


Keila Sgobi
11/07/2006


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08 julho 2006

Reencontro 2


Naquele abraço de saudade
seu cheiro envolveu-me sem humildade
Os olhos lacrimejavam de felicidade
por novamente te encontrar.

O abraço forte incompreendido
foi dado sem nada julgar
Queria apenas sentir comigo
o corpo que não hei de tocar.

Mas eis que nada está perdido
Nenhuma outra em seu coração há
Surge o sonho nunca esquecido:
daquele beijo você me dar.


Keila Sgobi
28-30/08/2004


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06 julho 2006

Cristo


Se cristo fosse
encontrado,
dissecado
estudado
e descobrissem que foi
demente
que,
inocentemente,
enganou toda a
gente,
que tudo foi
ilusão,
qual seria a nossa
direção?



Keila Sgobi
12/04/2005


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02 julho 2006

Viagem na casca do ovo do mundo

o ônibus virava de um lado para o
outro

e o céu estrelado o acompanhava
aquela abóboada azulada
toda estrelada
brincando de esconde-esconde
entre rios e vales

trezentos e sessenta graus
me escondiam das estrelas

cento e oitenta
as escondiam de mim

e na gema do ovo
eu balançava dentro da casca
e já nao sabia se era eu que balançava

ou se ela me embalava...

Keila Sgobi
06/06/2005


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01 julho 2006

sonhe...

fique bem ao fechar os olhos
recostando-se no travesseiro macio
esperando que o sonho que nunca chega
não se torne um momento vazio...


Keila Sgobi
08/09/2005
(Cesta)


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25 junho 2006

É tudo vazio. Inclusive eu.

Sabe, eu gosto quase nada da Fernanda Young. Nada-nada. É que eu não me identifico com oseu modo de falar, lidar com as pessoas. Não me simpatizo com o seu jeito de ser demonstrado na TV ou coisa que o valha. Minha opinião. É só isso. Mas ouvi pensamentos muito interessantes desta escritora excêntrica. E concordei com eles.
Ela acredita na eternidade do amor. E o amor não é somente aquele amor do casório, é o amar de gostar de estar junto, de respirar junto, de colo, de cuidado, de brigas, carinhos, alegrias, amizades e tudo o mais. Uma mulher de 36 anos já viveu (leia-se sofreu) muitas dores, amores e horrores nesta vida.
O que me deixou mais confiante em meus pensamentos foi sua constatação sobre o ser adulto: ninguém nos avisa que é a pior fase de nossas vidas. A mais difícil e dolorosa. Infelizmente, a mais longa. Se a adolescência lhe pareceu dolorosa, tenha a certeza de que a vida adulta pode ser ainda pior. E eu já começo a vislumbrar o triste futuro.
Desde meus doze anos sei que a vida não é como desejamos e não corresponde ao nosso planejamento. O que esperava ter construído até os 24 anos ainda está pela metade: falta material de construção, um bom designer de interiores, este tipo de detalhe. Desde os 15 não faço planos para um futuro distante. Penso somente a curto prazo: meses, dois anos no máximo. Tem sido o suficiente para não me frustrar em demasia e lidar com as questões de ser humana física e existencialmente.
Pensar deste modo me permite olhar o sofrimento humano que é sempre presente (seja ele do passado ou futuro) e descrevê-lo como percebo, sinto. Esta dor é constante. As pessoas são solitárias, vivem um vazio existencial comparável a um buraco negro que tudo engole, inclusive quem (ou o que) o cerca e, para camuflarem seus flagelos e negarem o fado que construíram, protegem-se com uma casca oca que reluz falácias envolventes.
Anorexia. Bulimia. Vigorexia. Depressão. Estresse pós-traumático. Síndrome do Pânico. Câncer. Dermatites. Por dentro e por fora adoecemos para evitarmos o contato consigo e com o outro. Conhecer o próprio vazio é imensamente angustiante. O mais (in)sensato continua sendo negar. Esconder. Tapar. Ignorar.
Se ser poeta é negar esta existência, eu nunca fui poeta e nunca serei.
Amém.
"Você sabia que a probabilidade de uma pessoa morrer é maior se o vaso sanitário sob suas nádegas se estilhaçar do que se ela tentar suicídio?"

17 junho 2006

da aurora à solidão


E o dia fez-se noite.
O sol que animava as flores encolhidas
se foi.

Os pássaros se recolheram,
Estranhos ao anoitecer
Antecipado.

Nada era compreensível
Um vento frio começou a cortar a pele das crianças que brincavam nas ruas.
Todas assustadas.

Não ventara,
Não chovera,
Não chorara o dia todo.

Mas um ar sombrio e triste
Triste e sozinho
Animara-se repentinamente.


A noite escureceu
Despedindo as estrelas e a lua
Que tanto a incomodavam.

Sozinha, a menina sorria

Sorria ao vê-lo amar
E ser amado.

Mas as palavras são sempre mais afiadas que a espada
E a felicidade tornou-se tristeza
E o amor tornou-se solidão.

Seus doces olhos se umedeceram
Sem deixar que uma lágrima escorresse

E o dia fez-se noite
Sem fim de tarde colorido
Sem estrelas reluzindo
Cem noites de solidão.


Keila Sgobi de Barros
13/03/2005


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16 junho 2006

O menino

A criança olha para um lado
para outro,
para o pai,
onipotente,
sentado ao seu lado
e coloca,
disfarçadamente,
o dedinho no nariz.

Gira para a direita,
para a esquerda,
vai fundo...
Retira o dedinho
e desce,
vagarosamente,
para a boca.

Chupa o dedinho,
raspa com os dentes.

Então,
olha para o pai novamente
e repete o ato
inocentemente.

Keila Sgobi

25/06/2001

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15 junho 2006

temor

E eu sempre temendo
abrir os meus braços
envolver-te como tentáculos
agarram para sobreviver

escorregar minhas mãos
e sentir-te corpo inteiro
reconhecendo, sem exageros,
seus caminhos sem contra-mão

cheirar-te o rosto
provar-te o gosto
viver em gozo
ser abandonada pela manhã

meu desejo de engolir-te
e, quem sabe, possuir-te
para beijar-te, agarrar-te
e sentir-me plena de amor

sempre temendo, eu temi
e nada pude impedir:
perdi teu corpo, teu cheiro, teu gozo
pago com a alma o preço do meu temor.


Keila Sgobi
02/02/2006

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